José Antunes
Vice President Consulting Services
Não se trata apenas de tornar a economia atual mais sustentável, mas de redesenhá-la para que crescimento, competitividade e sustentabilidade se reforcem mutuamente. Por José Antunes, vice-president Consulting Services IP Solutions, CGI
Os incêndios que têm afetado vários países europeus nos últimos verões, as sucessivas vagas de calor na Europa e os deslizamentos de terras e inundações no Nepal reforçam a urgência de agir perante os riscos crescentes associados às alterações climáticas.
Embora a temperatura média global já tenha ultrapassado 1,5 °C de aquecimento num ano, o limite de longo prazo associado ao Acordo de Paris (2015) ainda não foi considerado ultrapassado. A proximidade desse limiar, porém, reforça a urgência de agir, o momento atual exige uma maior ambição.
Não se trata apenas de tornar a economia atual mais sustentável, mas de redesenhá-la para que crescimento, competitividade e sustentabilidade se reforcem mutuamente.
Esta transformação aponta para modelos económicos mais circulares, eficientes e interligados, onde a energia ocupa um lugar central. A eletrificação dos transportes, dos edifícios e dos processos industriais, associada ao crescimento das energias renováveis, está a transformar o sistema energético: a produção torna-se mais distribuída, o consumo mais dinâmico, e o consumidor assume um papel cada vez mais ativo – seja através do autoconsumo, das comunidades de energia ou dos Distributed Energy Resources (DER).
As redes elétricas enfrentam, por isso, novos desafios. Concebidas durante décadas para suportar um fluxo de energia predominantemente unidirecional, das grandes centrais para o consumidor final, têm agora de acomodar fluxos multidirecionais, produção intermitente, novos padrões de consumo e uma procura cada vez mais variável.
Neste contexto, produzir energia renovável é apenas parte da equação. O verdadeiro desafio está em gerir a complexidade crescente de um sistema em que produção, consumo e armazenamento se tornam, em simultâneo, mais dinâmicos, descentralizados e interdependentes.
É aqui que a tecnologia assume um papel decisivo. Smart grids, armazenamento de energia, gestão da procura, dados e inteligência artificial serão fundamentais para tornar as redes mais flexíveis, eficientes e resilientes. Da previsão da produção renovável à otimização dos ativos, passando pela gestão em tempo real da procura e da oferta, as tecnologias digitais permitem coordenar um sistema energético que se torna progressivamente mais complexo.
No entanto, a transformação não dependerá apenas da adoção de novas tecnologias. Dependerá, sobretudo, da capacidade de as integrar. Energia, indústria, mobilidade, edifícios e consumidores têm de deixar de ser pensados como sistemas independentes e passar a funcionar como partes de um mesmo ecossistema.
É esta capacidade de ligação que pode acelerar a transição. Infraestruturas digitais, dados e inteligência artificial podem criar uma camada de coordenação capaz de ligar milhares de pontos de produção, consumo e armazenamento, permitindo utilizar a energia e os recursos de forma mais eficiente e adaptada às necessidades de cada momento.
Neste novo paradigma, as renováveis fornecem a base, a eletrificação amplia o seu impacto e a tecnologia permite integrar e otimizar o sistema. Juntas, estas três forças podem transformar a transição energética num dos principais motores de modernização da economia e da sociedade.