Por Carlos Gomes, Senior Vice President Consulting Services, CGI
Publicado na Executive Digest | 29 de junho de 2026

A história da inovação mostra-nos um padrão claro: os maiores saltos transformacionais raramente acontecem apenas por avanço tecnológico. Os grandes ciclos de inovação sustentada e com impacto na sociedade acontecem quando tecnologia, talento, necessidade e contexto favorável se alinham, e quase sempre em momentos de pressão, transformação ou necessidade coletiva. É nesses períodos que organizações, governos e sociedades aceleram decisões, reduzem barreiras e criam condições para transformar conhecimento em impacto real.

A pandemia COVID-19 foi um dos exemplos mais evidentes desta dinâmica. Em tempo recorde, assistiu-se ao desenvolvimento de vacinas, à criação de modelos de negócio totalmente digitais e à transformação profunda das formas de trabalho, impulsionada pela adoção massiva do teletrabalho e de plataformas colaborativas.

No entanto, a velocidade dessa transformação não aconteceu apenas pela existência de tecnologia. O fator decisivo foi o contexto criado para permitir inovação em escala. Reguladores aceleraram processos de aprovação, governos partilharam informação de forma mais aberta, empresas colaboraram entre si e setores inteiros alinharam-se em torno de objetivos comuns. Ao mesmo tempo, o sentido de urgência alterou a relação com o risco: o receio de falhar deixou de bloquear a experimentação e a capacidade de execução.

A nossa experiência, apoiada em meio século de existência, mostra-nos que os ciclos de maior disrupção redefinem não apenas tecnologias, mas também modelos de negócio, cadeias de valor e expectativas dos clientes.

É precisamente esse contexto que estamos novamente a viver. A disrupção provocada pela Inteligência Artificial está a desafiar setores inteiros de atividade, incluindo o próprio modelo de negócio das empresas de consultoria, tornando impossível falar de inovação sem enquadrar o potencial transformador que esta tecnologia introduz.

Mais do que uma tendência tecnológica, a IA representa uma mudança estrutural na forma como as organizações operam, tomam decisões, criam valor e se relacionam com clientes, colaboradores e parceiros. Neste novo ciclo de inovação acelerada, inovar deixou de ser apenas uma oportunidade de crescimento: em muitos setores, tornou-se uma questão de competitividade e, em alguns casos, de sobrevivência.

Por isso, o primeiro passo passa pelas empresas inovarem na forma como operam nos diferentes setores de atividade. A adoção da IA não pode ser vista apenas como uma camada tecnológica adicional, mas como uma oportunidade para repensar processos, modelos operacionais e formas de criar valor.

Para que esta transformação aconteça de forma rápida, sem atropelos, sem exposição a riscos não mitigados e tirando partido efetivo da IA, é necessário que a cultura e o contexto organizacional seja favorável. Isso implica capacidade de investimento, uma estratégia clara e mensurável e, sobretudo, uma cultura onde as pessoas se sintam seguras para experimentar, questionar e propor novas formas de gerar valor. Mesmo que isso, em algumas situações, possa traduzir-se em insucesso.

Inovar exige coragem organizacional. Porém, no final, importa lembrar que a inovação não se mede pela tecnologia implementada, mas pelo valor criado em escala, para as organizações, para os clientes e para a sociedade. É precisamente aqui que reside o futuro da inovação.