Por José Pratas,
Vice-Presidente de Strategic Offering, Innovation & Partnerships da CGI

Publicado na ECO | 28 de outubro de 2026

É tempo de começarmos a olhar para os ecossistemas de inovação de uma outra forma, dando relevância ao que acontece depois: que ideias chegam ao mercado e que talento conseguimos desenvolver.

A inovação é cada vez mais um exercício coletivo. A velocidade da evolução tecnológica, a complexidade dos desafios e a necessidade de encontrar respostas para problemas novos obrigam as organizações a trabalhar de forma diferente e, sobretudo, em conjunto. É neste contexto que os ecossistemas de inovação ganham importância, aproximando empresas, start-ups, universidades, centros de investigação, parceiros tecnológicos e clientes em torno de desafios comuns.

Aparentemente, a ideia é simples: combinar diferentes conhecimentos, experiências e perspetivas para encontrar respostas que, dificilmente, surgiriam dentro de uma única organização. A “má notícia” é que um ecossistema não se constrói apenas através de parcerias. É preciso criar relações que funcionem, partilhar conhecimento e combinar competências para transformar as ideias em resultados tangíveis.

A evolução da inteligência artificial veio acelerar ainda mais esta dinâmica. Hoje testamos ideias, desenvolvemos protótipos e exploramos soluções a uma velocidade difícil de imaginar há poucos anos, enquanto os ciclos de inovação são cada vez mais curtos e as expectativas dos clientes e dos mercados aumentam. Somos chamados a experimentar mais, aprender mais depressa e a passar rapidamente para aquilo que funciona.

Mas será que estamos a conseguir preparar as pessoas ao mesmo ritmo a que estamos a querer transformar as organizações?

Num contexto em que o conhecimento e as tecnologias evoluem rapidamente, a ligação entre a academia e as organizações deixa de ser apenas desejável e passa a ser necessária. Mais do que preparar os estudantes para as tecnologias de hoje, importa criar condições para que desenvolvam a capacidade de aprender, experimentar e adaptar-se continuamente.

É aqui que a criação de pontes entre universidades e empresas tem particular importância. Estágios, programas de desenvolvimento de talento, projetos conjuntos e iniciativas académicas permitem aproximar a formação da realidade das organizações e proporcionar aos estudantes contacto com tecnologias, desafios e formas de trabalho concretas.

A vantagem é que os ganhos são bilaterais. Os estudantes têm a oportunidade de conhecer problemas reais, trabalhar com diferentes equipas e desenvolver competências. As organizações podem conhecer novos talentos, serem desafiadas por novas perspetivas, acompanhar a evolução do conhecimento académico e contribuir para uma formação mais próxima das necessidades futuras.

Contudo, esta colaboração não deve terminar com a entrada no mercado de trabalho. A participação de profissionais em iniciativas académicas, a colaboração em projetos de investigação ou o desenvolvimento de programas conjuntos podem criar uma relação mais contínua entre os dois mundos. O desafio está em criar as condições para que diferentes competências e perspetivas se encontrem, se complementem e contribuam para objetivos comuns.

E esta lógica estende-se aos diferentes participantes do ecossistema, incluindo start-ups, parceiros tecnológicos, universidades, empresas e clientes. Esta diversidade contribui com conhecimento, experiência, tecnologia, talento, ou uma perspetiva diferente sobre os desafios que importa endereçar. Quando um ecossistema funciona numa lógica complementar, cria-se um contexto mais favorável à experimentação, à inovação e à produção de valor.

Por isso, é tempo de começarmos a olhar para os ecossistemas de inovação de uma outra forma, dando relevância ao que acontece depois: que ideias chegam ao mercado, que problemas são resolvidos, que processos são transformados e, sobretudo, que talento e competências conseguimos desenvolver.